O que é o Animismo?

by | Jan 3, 2020 | Animism, Bioregional Animism

Muitas pessoas que descobrem o termo Animismo sentem-se atraídas por ele. A ideia de que o mundo está vivo faz naturalmente sentido para muitos de nós. No entanto, o “Animismo” tem uma história complicada. Se desejamos recuperar esta palavra de maneiras úteis, é importante então que aprendamos sobre a sua história primeiro. No texto em baixo, tento explicar, de forma muito breve, o Velho e o Novo Animismo. Convido-vos também a visitar a minha página de recursos e a explorar os artigos, livros e cursos sobre Animismo que lá partilho.

“Cultura primitiva” e o velho animismo

A definição mais comum da palavra “Animismo” é a crença de que entidades não humanas (animais, plantas, objectos inanimados ou fenómenos) possuem uma essência espiritual 1. Esta definição tem as suas origens em Edward Tylor, pai da antropologia e autor do livro “Cultura Primitiva”, o qual classificou os povos indígenas como “primitivos” e argumentou que na visão do homem selvagem, todos os homens tinham, para além do seu corpo, uma “alma-fantasma”, uma “imagem humana fina e insubstancial”, a “causa da vida ou do pensamento no indivíduo que anima”, capaz de “deixar o corpo para trás” e de “continuar a existir e aparecer aos homens após a morte desse corpo” 2. Tylor era um racionalista e, por isso, na sua mente, as “pessoas primitivas” eram delirantes e pensavam como crianças 2, não sendo capazes de distinguir entre objectos animados e inanimados. Tylor também sugeriu que a religião moderna tinha evoluído em fases a partir de crenças animistas 2, e que, eventualmente, a humanidade acabaria por rejeitar totalmente a religião em favor da racionalidade científica. De acordo com E. Tylor, o animismo caracteriza tribos muito baixas na escala da humanidade, e daí ascende, profundamente modificado na sua transmissão, mas do inicio ao fim preservando uma continuidade ininterrupta, até ao centro da cultura moderna.

O Novo Animismo

Hoje em dia, as ideias de Tylor são vistas como incorrectas e ofensivas. Muitos antropólogos evitam inclusive usar a palavra “animismo” para descrever as crenças Indígenas devido ao seu antigo significado e, de facto, muitos povos Indígenas rejeitam ser apelidados de animistas devido a toda esta história. No entanto, diversas pessoas têm vindo a recuperar a palavra de maneiras úteis ao longo das últimas décadas.

O “novo animismo” surgiu, em grande parte, das publicações do antropólogo Irving Hallowell, as quais foram produzidas com base na sua pesquisa etnográfica entre as comunidades Ojibwe do Canadá, em meados do século XX. Para os Ojibwe que Hallowell encontrou, uma pessoa não tinha que ter semelhanças com um ser humano mas, pelo contrário, os humanos eram vistos como sendo como outras pessoas, as quais, por exemplo, incluíam pessoas rochas e pessoas ursos. Para os Ojibwe, estas pessoas eram seres intencionais, que ganhavam significado e poder através das suas interacções com outros; ao interagirem respeitosamente com outras pessoas, eles mesmos aprendiam a “agir como uma pessoa”. A abordagem de Hallowell para compreender o conceito de pessoa dos Ojibwe diferiu significativamente dos conceitos anteriores de antropologia sobre animismo. Ele enfatizou a necessidade de desafiar as perspectivas ocidentais modernistas sobre quem é considerado uma pessoa, ao entrar em diálogo com diferentes visões do mundo. 1

Para além de Irving Hallowell, outras pessoas têm contribuído para o surgimento do “Novo Animismo”, tal como o trabalho de Nurit Bird‐David, David Abram e Graham Harvey, entre muitos outros. O livro de Graham Harvey teve um especial impacto em mim. Em baixo, partilho a sua definição de Animismo, do seu livro “Animism: Respecting the Living World”:

Animistas são aqueles que reconhecem que o mundo está repleto de pessoas, apenas algumas delas humanas, e que a vida é sempre vivida em relação com os outros. O Animismo é vivido de várias maneiras, as quais se focam em aprender sobre como agir respeitosamente (com cuidado e de maneira construtiva) em relação e no seio de outras pessoas.

No Animismo, as relações são centrais. Como é que nos relacionamos respeitosamente com Humanos, Não-Humanos e Antepassados? Como é que abordamos Anciões, incluindo aqueles que são Rochas e Árvores? Nas sociedades humanas, somos ensinados a nos relacionar respeitosamente uns com os outros, e aprendemos as formas apropriadas de agir e falar em cada situação. No entanto, a nossa cultura dominante esqueceu-se há muito sobre como se relacionar com a comunidade Não-Humana. Se partilhamos todos este mundo, e se realmente vemos todos os seres como iguais, então é importante relembrar os conhecimentos antigos, e como os nossos Antepassados – aqueles que ainda tinham uma forma Animista de ver o mundo – se relacionavam com a comunidade Não-Humana, bem como é que eles mostravam respeito pelos seus próprios Antepassados. É verdade que perdemos muita da estrutura para o fazer, e muito deste conhecimento foi mesmo perdido para sempre. No entanto, é ainda assim necessário darmos o nosso melhor para recuperar e aprender o que pudermos dos nossos Antepassados, bem como, lenta e humildemente, começarmos a criar novas formas de nos relacionarmos apropriadamente com a comunidade Não-Humana, formas estas que substituam as que foram perdidas. Tradições que celebram a Terra, tais como aquelas de culturas Indígenas, podem ser muito inspiradoras, porém, é também importante ser consciente e não apropriar as suas culturas indiscriminadamente. Para nós aqui em Portugal, é importante mantermos em mente que os rituais e formas de relacionamento são baseados na terra onde os nossos pés assentam e, por isso, é importante ouvir os Espíritos do Lugar locais e desenvolver estruturas e rituais que funcionem onde vivemos.

Esta é uma muito breve introdução ao Animismo, a qual espero desenvolver no futuro. De momento, encontro-me também a aprender mais sobre estas formas de relacionamento, a descolonizar os meus pensamentos e crenças, a ler tudo o que posso sobre o assunto, e a estudar no curso Practical Animism por Daniel Foor (o qual recomendo bastante!). Se está interessado(a) em aprender mais sobre o assunto, então visite a minha página de recursos aqui, a qual estará em constante actualização! Sinto-me imensamente motivada para partilhar esta informação sobre o (novo) Animismo com outras pessoas.

Mas por que é que é importante recuperar esta palavra de todo? O Animismo não é uma religião (pessoas de diferentes crenças, incluindo ateístas, podem ser Animistas), representando antes um conjunto de valores centrais que reconhecem o estatuto de pessoa a pessoas Não-Humanas (parando assim de objectificá-las). Eu acredito profundamente que, se incorporarmos estes valores nas nossas vidas, os nossos comportamentos destrutivos e individualistas para com a Terra terão de acabar. Não podemos viver em isolamento, estamos todos ligados e somos todos parte da Grande Teia da Vida. Assim que abrimos o nosso coração e a nossa consciência, e iniciamos o processo de luto pela Terra, não há ponto de retorno. Eles são a nossa gente, a nossa Família, e estão a morrer, a desaparecer para sempre. Iremos então mudar os nossos comportamentos ou deixar que a destruição continue? Nós podemos escolher. Escolhamos a Vida.

  1. Animism (Wikipedia)
  2. “Animism” Revisited: Personhood, Environment, and Relational Epistemology, por Nurit Bird‐David
  3. What is Animism por Daniel Foor

You may also like…

0 Comments

Leave a Reply

Join my Newsletter

☾☼☽

Join my newsletter and receive freebies, exclusive information, learning opportunities and more! You can subscribe bellow: